segue o fluxo
, é que eu não consigo me concentrar quando sinto frio. então vou logo atrás de me esconder e cobrir inteira: de fora, só os olhinhos, atentos. de fora, só as palavras, atentadas. me exponho completamente ainda que perfeitamente camuflada por entre as mantas de microfibra e as frases tecidas sem muito esmero. só o suficiente. cavuco até o fundo das gavetas, as mais antigas, aquelas que ninguém nem lembrava a existência. na minha obsessão travestida de curiosidade, sou capaz de ligar todos os pontos, não deixar solta nenhuma ponta e os meus is ficam completinhos com seu acessório favorito. já nem sei quantas vezes montei e remontei histórias no meu quadro de cortiça cheio de fatos, fotos e fios vermelhos numa total abstração de mim mesma. quantas horas já perdi montando um ou mais quebra-cabeças que interessavam apenas para as vozes da minha cabeça. percebi que raramente fico entediada. numa mistura de benção e maldição, nos dois lados da moeda, nos dois gumes da mesma faca afiada, a minha mente jamais me permitiria tal indecência. já perdi as contas também de quantas vezes eu morri só nesse ano: envenenada com fel alheio, engasgada nas minhas próprias palavras, tropeçando em mim mesma, empurrada do abismo, atropelada pelo destino e até flechada no peito eu tomei. morri na certeza, morri de dúvida, morri de tesão, de saudades, de desgosto e desilusão, de tristeza, morri também de amor. morte matada, morte morrida, tive mortes grandiosas e tive também as pequenas. pequenas mortes. não sei quantas vezes morri nesse semestre, nesse mês, nessa semana ou hoje mesmo, ouvindo o canto do mesmo pássaro pela manhã, pensando no uivo do cão selvagem e sem dono que insiste em me atormentar as ideias e balançar as estruturas do meu castelo da lua. tenho certeza que em outra vida, …, não, nem precisa de outra vida. nessa mesmo. em algum outro momento, antes ou depois, tanto faz, num outro ramo da figueira, outro figo pra eu me deliciar na metáfora – no literal, não gosto de figos, prefiro as maçãs ou mexericas. uma outra esquina virada. eu sei lá. também, a essa altura, já nem interessa mais. mas tenho certeza que já já, daqui a pouco ou ainda em muito tempo. pode esperar. ou melhor, não espere não, vai indo lá que eu já vou. esse ano tão deliciosamente imprevisível poderia ser transfigurado & resumido naquele chiclete do willy wonka que vai mudando de sabor ao longo do tempo. já senti na boca o sabor de café com caramelo, remanescente ainda da primavera passada. já teve sabor de erva cidreira, sabor de limão e toda sua refrescância. já teve o gosto de molho de tomate apimentado e viciante. quanto mais arde, mais vezes voltamos para provar. então aguardo o próximo prato desse menu degustação de dois mil e vinte e cinco passos. sem eira nem beira, caminho um caminho aleatório e bonito. graças a deus ainda me dou o privilégio de me surpreender e me encantar com o que me aparece. até as aparições. a sensação de que “o ano está acabando” me dá gastura, me inquieta horrores. a eterna sensação de insuficiência e a mania de espiar a grama dos vizinhos. dos sonhos e planos que atravessaram o portal do ano novo comigo, poucos se mantiveram intactos. uma locomotiva de transformação me arrastou sem que eu nem pedisse carona, sem eu nem me dar conta. mas a queda da torre nem sempre é só desgraça e tenho visto portas e janelas se abrirem aonde antes eu via apenas paredes brancas. ao menos deixei de roer minhas unhas. ao menos o inverno está acabando e em breve eu vou poder me concentrar melhor.
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